
O carro de aplicativo virou, discretamente, um ponto de venda para motoristas interessados em buscar um rendimento extra entre uma viagem e outra. O movimento, que começou com balinhas deixadas no console para agradar os clientes, ganhou escala e estratégia. Alguns motoristas transformaram o trajeto em oportunidade de negócio, oferecendo perfumes em displays pendurados na parte de trás do banco do passageiro.
O fenômeno é resultado de um momento em que “o cérebro humano busca cada vez mais conveniência” e tende a comprar quando encontra algo pronto e fácil durante a rotina, segundo a especialista em vendas e persuasão Grazi Guaspari. O ambiente fechado, com poucos estímulos concorrendo pela atenção, também favorece a decisão. “É quase uma vitrine passiva”, afirma.
Mais de 200 motoristas apostam em perfume
Esse movimento impulsionou empresas voltadas exclusivamente ao fornecimento de produtos para motoristas. É o caso da Like Brasil, que distribui fragrâncias licenciadas pela Brazilian Dubai. Natalia Oliveira Braz, que é dona de um dos centros de vendas dos perfumes, cuida atualmente de 200 motoristas ativos e fornece kits que variam de R$ 500 (20 perfumes) a R$ 3 mil (100 perfumes), além do material de apoio e do display para expor as embalagens no carro. Ela entrou no setor há um ano e meio, sendo que há seis meses trabalha com a marca.
A profissional “recruta” motoristas com divulgação boca a boca e por meio de influenciadores do segmento. “Tenho dois vendedores muito bons que ajudam a ensinar os demais. Mantemos um grupo no WhatsApp com quase 400 motoristas, e eles vão dando dicas para os demais”, conta. Seu faturamento mensal gira em torno de R$ 5 mil.
Grazi aprova o produto escolhido pelo grupo para a venda dentro do carro. “O olfato é o sentido mais ligado à memória e à emoção”, explica a especialista, destacando que um aroma agradável dentro do carro reduz o estresse e cria uma experiência positiva. Além disso, ela destaca que, quando o passageiro descobre que pode levar aquele cheiro para casa, o ciclo de compra se fecha naturalmente.
De 12 para 30 corridas por dia para vender mais
Com 4 anos de atuação como motorista de Uber e 99, Ibrahin Bezerra Júnior vende perfumes há 6 meses. O investimento inicial foi de R$ 300. Ele comprou as fragrâncias no centro de distribuição e ganhou o display após atingir o volume mínimo promocional: 20 vidros de perfumes.
As vendas vêm crescendo mês a mês, segundo ele. “Em novembro vendi 60 perfumes. Isso porque não sou um vendedor nato. Venho mudando a minha estratégia conforme aprendo com outros vendedores. Também faço viagens mais curtas para transportar mais gente e ter mais chances de vender.”
O resultado é significativo: 30% do faturamento mensal já vêm dos perfumes. Cada um é vendido por R$ 50. Ele conta que percebeu a importância de apresentar os produtos para os passageiros logo que entram no carro. “Eu vi que, se não falar, a pessoa não se interessa e acaba não comprando.
Do bolo de pote para o universo das fragrâncias
Há 9 anos dirigindo Uber e inDrive, Mauro Senhorini tentou outras estratégias antes dos perfumes. “Comecei comercializando bolo de pote. Vendia de 18 a 20 por dia, mas o lucro era muito baixo e dava muito trabalho porque precisava transportar o isopor cheio de gelo para não estragar. Depois de muita insistência da Natalia, eu resolvi tentar e funcionou.”
No início do negócio, ele investiu R$ 400 em 20 perfumes e 10 fragrâncias diferentes. Hoje, o produto representa entre 40% e 50% da renda mensal.
A matéria tem como fonte o portal: https://www.dcomercio.com.br/publicacao/s/uber-alem-do-volante-motoristas-fazem-do-carro-uma-vitrine-para-venda-de-perfume


