
Fim da escala 6×1 pode frear novas contratações? Empresas estimam alta de custos
Companhias terão de ampliar equipes para manter operações contínuas ou reorganizar jornadas e horários. Pequenos negócios como restaurantes, que já começam a rever escalas e contratar freelancers, devem enfrentar maior dificuldade para absorver custos
Quatro em cada dez empregadores brasileiros planejam ampliar o quadro de funcionários permanentes ainda em 2026, segundo pesquisa de Intenções de Contratação da Robert Half. O levantamento, realizado com 500 tomadores de decisão de contratação no país, mostra que 42% das empresas pretendem aumentar as equipes efetivas. Outras 28% planejam ampliar as contratações temporárias, e 22% as contratações por projeto.
A perspectiva surge em um mercado de trabalho que atingiu recorde em 2025. O Brasil chegou a 103 milhões de pessoas ocupadas, o maior contingente da série histórica iniciada em 2012, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua, divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O número de desocupados, por sua vez, caiu para 6,1 milhões, o menor já registrado pela pesquisa – o que tem levado diversas empresas, de setores variados, a enfrentarem dificuldades recorrentes para encontrar mão de obra disponível.
O cenário de expansão do emprego também pode trazer novos desafios para as companhias com o fim da escala 6×1. A redução gradual da jornada semanal, sem diminuição dos salários, deve levar as empresas a reorganizarem suas equipes. Em atividades que exigem atendimento contínuo, a mudança também pode exigir novas contratações para manter o mesmo horário de funcionamento.
Mudança no ritmo
A Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) avalia que a redução da jornada poderá afetar a geração de empregos no comércio e no setor de serviços. Em respostas enviadas por e-mail, a entidade afirma que 2027 deve ser marcado por maior pressão sobre os custos operacionais, com necessidade de reorganizar equipes e rever horários e escalas.
Segundo a CNC, empresas com menor capacidade financeira, especialmente pequenos negócios, poderão ter mais dificuldade para absorver as despesas adicionais. Nesse cenário, a abertura de vagas pode perder ritmo e os quadros de funcionários passar por ajustes.
A entidade também ressalta que o impacto será mais acentuado em atividades de operação contínua, atendimento direto ao público e estabelecimentos que funcionam aos fins de semana, domingos e feriados.
Na indústria, a CNI, confederação que representa o setor, também manifesta preocupação com os efeitos econômicos da mudança. A entidade afirma que a redução da jornada de 44 para 40 horas semanais, com manutenção dos salários, pode provocar aumento dos custos de produção, demissões e repasses de preços ao consumidor.
Levantamento da CNI estima que os custos de produção podem subir até R$ 267,2 bilhões, enquanto o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro pode cair 0,7%, o equivalente a R$ 76,9 bilhões. A entidade também projeta alta média de 6,2% nos preços ao consumidor.
“Lamentamos que a votação tenha sido feita sem mais debates com a sociedade brasileira e entendemos que os impactos dessa medida não foram devidamente mensurados”, afirmou Ricardo Alban, presidente da CNI, em comunicado oficial da entidade.
Quanto pode aumentar o custo da folha de pagamento?
O impacto financeiro depende da jornada atual, do número de funcionários e do funcionamento de cada negócio. A redução das horas disponíveis por trabalhador pode exigir novas contratações, pagamento de horas extras ou reorganização das escalas.
Thereza Cristina Carneiro, sócia responsável pela área trabalhista do CSMV Advogados, explica que a manutenção dos salários, mesmo com a redução da jornada, aumenta o custo relativo de cada hora trabalhada. Segundo a advogada, ao final da transição, o valor da hora de trabalho sobe cerca de 10%. Isso também repercute em verbas calculadas por hora, como horas extras e adicional noturno.
“Cada empregado passa a entregar cerca de 9% menos tempo de trabalho”, afirma. Para manter a mesma cobertura de atendimento, a empresa precisará de aproximadamente 10% a mais de horas, que podem ser obtidas por meio de contratações, horas extras ou reorganização das escalas.
O efeito também varia conforme o porte do negócio. Pequenos comerciantes têm menos margem para ajustar equipes, enquanto grandes redes conseguem redistribuir funcionários entre unidades e investir em produtividade. Para trabalhadores horistas e comissionistas, comuns no varejo, há ainda o impacto do segundo dia de descanso remunerado.

Na segurança privada, a redução da jornada traz um desafio operacional: garantir a presença de profissionais em postos que funcionam continuamente, inclusive à noite, nos fins de semana e feriados.
Cristiene Travassos, diretora administrativa e financeira da Brasfort, afirma que a necessidade de cobertura não diminui com a redução das horas trabalhadas por cada vigilante. Por isso, a empresa prevê a necessidade de ampliar o quadro, embora ainda não tenha uma estimativa fechada de novas vagas.
Uma simulação matemática apresentada pela companhia indica que manter um posto com jornada de 44 horas semanais coberta por profissionais que passarão a trabalhar 40 horas exigiria cerca de 10% mais trabalhadores. Na etapa intermediária, de 42 horas, o acréscimo seria de aproximadamente 5%. Os números são simulações, e não projeções de contratação da empresa.
A mão de obra é o principal componente do custo dos contratos de vigilância, que incluem salários, adicionais, encargos, benefícios, uniformes, armamento e reciclagem profissional.
“A mudança constitucional na jornada altera a base de cálculo dos contratos de mão de obra dedicada”, afirma Cristiene. Segundo ela, a Brasfort pretende apresentar planilhas de custos aos clientes e discutir alternativas para manter a continuidade dos serviços.
A empresa também avalia reorganizar escalas, otimizar equipes de cobertura e ampliar o uso de monitoramento eletrônico, câmeras inteligentes e controle de acesso. Nos postos que exigem presença física armada, porém, a tecnologia funciona como complemento, e não como substituta do vigilante.
Restaurantes já mudam horários e contratam freelancers
No setor de alimentação, a adaptação pode envolver mudanças no horário de funcionamento, contratação de profissionais temporários e investimentos em tecnologia. Carlos Keiichi, diretor da Fogo Alto, empresa que conecta startups de tecnologia a restaurantes, relata que os estabelecimentos já começaram a rever suas operações. Entre as alternativas estão fechar em dias de menor movimento, como a segunda-feira, recorrer a contratos intermitentes e contratar freelancers para reforçar as equipes.
Segundo Keiichi, a rede atende mais de 2 mil restaurantes, dos quais cerca de metade já fez mudanças operacionais para se adaptar à redução da jornada. O executivo estima que, entre os estabelecimentos atendidos, as contratações de freelancers tenham crescido 20% nas duas semanas após a aprovação do projeto que colocou fim à jornada 6×1, em comparação com o mesmo período do ano passado. A demanda se concentra em funções como garçom, atendente, auxiliar de cozinha e lavador de louças.
O empresário estima um aumento de 8% nos gastos com mão de obra. Para compensar parte da pressão, restaurantes também podem investir em automação. O uso de tablets para registrar pedidos, por exemplo, pode aumentar a produtividade no salão e permitir que os garçons dediquem mais tempo à hospitalidade.
A CNC também aponta a reorganização de equipes e horários como alternativas no curto prazo. No médio prazo, a entidade destaca a automação, o comércio eletrônico e os ganhos de produtividade como caminhos para recompor margens. Outra possibilidade é o repasse dos custos adicionais aos preços finais.

Na Saúde Livre Vacinas, a adaptação começou com testes de diferentes modelos de jornada. Rosane Orth Argenta, CEO da rede especializada em imunização, afirma que a escala 5×2, com revezamento entre profissionais, deverá ser a mais utilizada. A escala 12×36 também está em avaliação, desde que sua aplicação seja considerada adequada e juridicamente validada.
A prioridade, segundo Rosane, é ajustar as folgas aos dias e horários de maior procura, sem comprometer a capacidade de atendimento. A rede também estuda formas de cobrir ausências e reforçar as equipes nos períodos de maior movimento.
A empresa estima um aumento de aproximadamente 15% na folha de pagamento. Para conter as despesas, avalia automatizar etapas do atendimento, chamadas repetitivas e lembretes de próximas doses com apoio de inteligência artificial. A organização das agendas e dos deslocamentos no atendimento domiciliar também está sendo revista.
“Há possibilidade da necessidade de reajuste de valores finais dos serviços para englobar o aumento de custo operacional, porém ainda estamos avaliando como será a reorganização das equipes”, afirma Rosane. A rede pretende avaliar as mudanças necessárias nas escalas antes de rever seu modelo de negócios e seu plano de expansão.
Produtividade será decisiva para preservar vagas
Para a CNC, a manutenção dos planos de contratação dependerá de fatores como crescimento econômico, juros, renda, produtividade e segurança jurídica. A entidade também defende regras complementares claras para micro e pequenas empresas e para regimes de trabalho diferenciados.
A pesquisa da Robert Half mostra que as empresas já enfrentam dificuldades para encontrar profissionais qualificados: 25% dos empregadores ouvidos apontaram escassez de talentos. Além disso, 37% planejam redesenhar cargos e formas de trabalho.
A consultoria identifica o treinamento e a qualificação como estratégias para enfrentar esses gargalos. O investimento em capacitação é citado por 62% das pequenas e médias empresas, e 72% das grandes organizações.
O fim da escala 6×1 pode frear novas contratações em empresas com menor margem para absorver o aumento dos custos, segundo a CNC. Por outro lado, atividades que precisam manter o atendimento contínuo, como segurança privada e serviços de saúde, podem precisar ampliar as equipes para cobrir as jornadas. O efeito sobre o emprego dependerá, portanto, da capacidade de cada negócio de reorganizar o trabalho, absorver as despesas adicionais e manter a produtividade.
Fonte: https://dcomercio.com.br/publicacao/s/fim-da-escala-6×1-pode-frear-novas-contratacoes-empresas-estimam-alta-de-custos