
O que começou como uma escovaria criada para resolver um contratempo cotidiano — a falta de tempo e imprevisibilidade de preços nos salões de beleza — virou, sete anos depois, um ecossistema de negócios. À frente desse movimento estão Michelle Wahdy e as sócias Márcia Queirós e Ana Teresa Welerson, que transformaram a Fast Escova em uma plataforma de beleza baseada em escala, padronização e franquias. Os resultados falam por si: ao longo de 2025, o grupo cresceu 55% e deve fechar o ano com R$ 325 milhões de faturamento, 400 unidades comercializadas no país e 310 em operação.
Fundada em 2018, a Fast Escova nasceu com um modelo simples – uma cadeira e um profissional habilitado – para oferecer um dos serviços mais demandados nos salões de beleza por quem procura autocuidado, mas tem pouco tempo disponível. E de um jeito disruptivo: atendimento sem hora marcada, serviços com tempo de execução definido e, o melhor, com preço fixo.
A proposta rapidamente ganhou tração e abriu caminho para a expansão via franchising. Mas a trajetória de Michelle e Márcia, que se conheciam desde 2009, quando trabalhavam como executivas na Avon e criaram o modelo de negócio para resolver um problema que também fazia parte do dia a dia delas, não foi tão simples e passou por alguns rearranjos financeiros.
Para tirar o plano de negócios do papel, procuraram um consultor e a estimativa era gastar R$ 250 mil. Como não tinham o montante, fizeram um empréstimo bancário de R$ 30 mil cada uma e procuraram levantar capital de outra forma.
Márcia vendeu seu carro; Michelle refinanciou o dela e vendeu bolsas durante um período. Segundo ela, além de ter entendido que “seu ciclo no universo CLT tinha encerrado”, sua filha de um ano, Manuela, precisava de cuidados especializados.
Por outro lado, de acordo com a então futura empresária, essa tranquilidade para realizar certos sacrifícios veio da certeza de que se tratava de uma oportunidade real, pois não havia nada parecido no Brasil. “Mandei uma mensagem para a Márcia: ‘vamos abrir um salão de fast escova?’. E ela respondeu:’vamos, e com esse nome'”.
O plano inicial era abrir uma única loja em Goiânia (GO), onde residem, com a ideia da Fast Escova rabiscada. Porém, antes da inauguração, elas perceberam o potencial do formato para o franchising, apontado para elas por uma conhecida, que perguntou se tinham parado para pensar que o que criaram podia ser franqueado. “Ela disse: ‘isso é uma franquia'”, conta.
Juntas, Michelle e Márcia voltaram a procurar o consultor, revisaram o plano de negócios e colocaram a franqueadora no centro do modelo. “Sempre tivemos a mentalidade de estar prontas ‘para o trem quando ele passasse’. E aconteceu: no dia da inauguração já apareceram pessoas interessadas em franquear o negócio”, lembra Michelle, animada.
Assim, o modelo de franquia, que foi estruturado para resolver uma lacuna no mercado, acabou ocupando o “espaço vazio” entre os salões de bairro e os salões high ticket, afirma Márcia. Já a conveniência do serviço sem agendamento e o preço fixo trouxeram previsibilidade e conforto às clientes, resolvendo um problema antigo não só delas, mas também do setor.
A pandemia foi outro desafio, pois, mesmo com 35 unidades comercializadas, foi preciso se reinventar para não deixar ninguém “na mão”, segundo Michelle, já que as pessoas continuavam interessadas na franquia, mesmo sendo um dos setores mais atingidos pelas medidas restritivas. Passaram então a treinar pessoas e capacitá-las online e a adquirir bons pontos que ficaram vazios na crise. Resultado: chegaram a 100 unidades em janeiro de 2021 – o “desejo do coração” de ambas na época, diz.
Também em 2021, o time de liderança feminina se fortaleceu com a chegada da advogada Ana Teresa Welerson, que se tornou sócia e investidora em um momento estratégico, quando a Fast Escova suspendeu a cobrança de royalties devido à pandemia.
Mesmo sem relação pessoal prévia, o trio estabeleceu uma parceria complementar: hoje, Michelle é responsável pela área comercial. Márcia Queirós lidera marketing e gestão e Ana Teresa as áreas jurídica e de implantação de unidades.
Para as sócias, o sucesso do modelo é evidente nos números e na adesão. Além das 400 franquias comercializadas, 60% dos novos investidores são clientes que “se encantaram” com o conceito. Outros 30% dos empreendedores são multifranqueados, ou seja, possuem mais de uma loja – o que demonstra a performance positiva e a solidez do negócio, afirma Michelle.
“Isso é muito relevante para nós, porque mostra que o franqueado está dando certo. Na maioria das vezes, a segunda loja já nasce performando e o franqueado nem precisa investir novo capital de giro, pois o negócio se paga desde o início.”
Dados da Pesquisa Trimestral de Desempenho da Associação Brasileira de Franchising (ABF) do 3º trimestre de 2025 apontam que o setor de Saúde, Beleza e Bem-Estar alcançou o segundo maior índice de faturamento no período, com alta de 13,1%.
Por dentro do ecossistema
Foi a partir do sucesso no franchising que o grupo estruturou o chamado Ecossistema Fast, que reúne novas frentes de negócio conectadas ao mesmo modelo baseado em conveniência e acesso fácil. Entre os serviços oferecidos pela Fast Escova estão escovas lisas e modeladas em 25 minutos, maquiagem, manicure e pedicure, design de sobrancelhas e retoque rápido de fios brancos (o chamado ‘Fast Retoque’). Tudo isso sem que a cliente precise ligar nem agendar horário.
Mas esse ecossistema não se resume aos serviços ‘de salão’. Além da Fast Escova, o portfólio inclui a Fast Spa, rede de spas urbanos acessíveis criada em 2024 com terapias que variam de 15 minutos a 1h30, também sem hora marcada e com valores fixos. Entre os serviços oferecidos estão reflexologia, drenagem linfática e liberação miofascial, segundo Márcia Queirós.
“Queríamos criar um espaço que fosse sobre pausa, mas sem luxo inacessível ou misticismo. Um spa para o dia a dia”, explica.
Há também a Fast Make, marca de maquiagem que estreou com uma linha própria de batons, e agora a Be Fast, marca de energéticos que chega ao mercado em 2026. O grupo também investe em produtos de beleza vendidos nas lojas e no e-commerce, ampliando as fontes de receita e a recorrência com a clientela, conta Michelle Wahdy.
Mas o que mais chama atenção no modelo de negócio da Fast Escova, porém, é o atendimento sem hora marcada, sem agendamento prévio nem atrasos, além de manter o preço fixo para o carro-chefe da rede: as escovas (a partir de R$ 79).
Segundo Michelle, para “simplificar a beleza do dia a dia” oferecendo serviços de alto padrão, a metodologia de atendimento contínuo se baseia em quatro pilares – e uma lição de gestão para outros estabelecimentos do setor: escala e padronização, para tornar o atendimento mais rápido e eficiente em todas as unidades; equipes dimensionadas por fluxo, com uso de dados históricos e previsão de demanda por dia e horário para ajustar o número de profissionais; serviços com tempo médio definido para organizar o fluxo com precisão; e monitoramento em tempo real para garantir que o tempo de espera seja mínimo.
“A cliente chega, é atendida rapidamente e consegue seguir sua rotina sem imprevistos — exatamente como ela precisa”, diz.
Quanto ao preço fixo, Michelle afirma que ele é sustentado por três fatores estratégicos, que são o modelo escalável (“quanto maior o fluxo, maior a eficiência operacional por unidade”, destaca), a padronização técnica, com processos treinados e repetíveis para reduzir variações e custos, e uma rede de fornecedores estruturada, negociando insumos e produtos em escala nacional para garantir previsibilidade de custo às unidades franqueadas. “O modelo permite oferecer um valor acessível e estável, entregando uma experiência premium e democratizando o acesso à beleza profissional.”
Para quem deseja investir, uma franquia do ecossistema da Fast Escova requer investimento entre R$ 390 mil e R$ 500 mil, com um retorno estimado entre 18 e 24 meses. A Fast Escova também oferece três formatos de loja, com 4, 6 e 10 cadeiras.
E a mão de obra?
O setor de beleza tem sido um dos mais afetados pela falta de profissionais qualificados, conforme destacado pelo Diário do Comércio no final de 2025, com os estabelecimentos registrando queda de faturamento de 20% por falta de mão de obra, de acordo com levantamento realizado pelo sindicato Beleza Patronal.
Em um ecossistema como o da Fast Escova, em que a demanda de atendimento de forma fast e sem hora marcada é o principal ativo da marca, a solução para contornar um problema que é do mercado como um todo é o investimento contínuo em formação profissional para fortalecer a rede, que hoje conta com 5 mil colaboradoras, e garantir perenidade, segundo Márcia Queirós.
A empresa também mantém uma universidade corporativa e prepara, para 2026, o programa EducaFast, que oferecerá cursos gratuitos para capacitar novos profissionais da beleza e encaminhá-los às unidades. “Queremos formar pessoas que ainda não estão na área da beleza, ensinar uma profissão e endereçar esses profissionais para as nossas franquias”, explica.
Em paralelo, para dar conta da demanda de atendimento a qualquer hora sem hora marcada no âmbito das colaboradoras, Michelle Wahdy afirma que foi desenvolvido um sistema de operação que inclui o “dimensionamento inteligente”, em que o número de profissionais é ajustado ao pico de fluxo em cada horário.
Além disso, as equipes trabalham sempre em rodízio para manter a produtividade alta sem sobrecarga, com processos enxutos e baseados em eficiência. “Cada profissional sabe exatamente o passo a passo da execução, reduzindo gargalos.”
Já o treinamento contínuo citado por Márcia no início ajuda na padronização técnica, garantindo constância no atendimento. “Essa engenharia operacional é o que permite um serviço rápido, de qualidade e sem necessidade de agendamento.”
Outros fatores também favorecem a retenção e evitam a evasão de profissionais. Segundo Michelle, a Fast Escova trabalha com um modelo de valorização da equipe replicado nas unidades, mesmo que cada uma seja responsável pelas contratações. Há trilhas de capacitação, com acesso a treinamentos e atualização contínua, além de um ambiente organizado e com fluxo garantido. “Quem trabalha na Fast sabe que terá movimento diário, gerando estabilidade e maior ganho”, explica.
Também há planos de carreira, com profissionais que evoluem para cargos de liderança como instrutoras internas ou gerentes, além da disseminação de uma cultura positiva, colaborativa e focada em bem-estar. “A soma disso cria um ciclo positivo: profissionais bem treinados, clientes bem atendidos e unidades com alto desempenho”, finaliza a fundadora.
A matéria tem como fonte o portal: https://dcomercio.com.br/


