Da NRF 2026 para a realidade do varejo do Brasil

Maior evento global do setor teve participação maciça de representantes brasileiros, mas, o que, de fato, faz sentido para o nosso cenário? Veja o que pensam expositores, palestrantes, líderes do mercado e especialistas presentes à feira

Tudo o que é tendência aparece primeiro na NRF Retail’s Big Show. Em 2026 foram vários lançamentos globais, inovações tecnológicas na gestão dos negócios, discussões sobre a nova geração e agentes de inteligência artificial (IA), apresentação dos resultados concretos das “promessas” dos anos anteriores e contribuições de representantes de mais de 100 países. Mas as perguntas que ficam são: nesse oceano de informações, como discernir o quê, quando e como vai impactar o varejo brasileiro? Qual o papel do nosso mercado nesse universo todo?

Vários foram os casos apresentados ao longo dos três dias de congresso ilustrando o alinhamento entre a aplicação da tecnologia e a excelência no atendimento. Da mesma forma, foram vistos projetos bem-sucedidos de complementariedade entre o físico e o digital. No Brasil, essa já é também uma realidade para algumas empresas. Entre elas, a Magalu, que foi tema de uma das sessões.

O CEO da varejista brasileira, Frederico Trajano, revelou como a pequena loja de presentes fundada por sua tia-avó nos anos 1950 em Franca (interior de São Paulo) encerrou o ano de 2024 com 35 milhões de clientes ativos, 1.245 lojas físicas, 472 milhões de visitas online e vendas de R$ 66 bilhões.

Em dezembro de 2025, a companhia inaugurou a Galeria Magalu, megaloja de 4 mil metros quadrados no icônico endereço que foi da Livraria Cultura, no Conjunto Nacional, em São Paulo, e que agora abriga um espaço de experiências reunindo a marca Magalu e outras quatro adquiridas pelo grupo: Netshoes, Época Cosméticos, KaBum! e Estante Virtual. “Queríamos materializar nosso ecossistema em um espaço físico.”

Com isso, ele consolida a integração física e digital da companhia, com um “centro de cultura, tecnologia e experiência”, diz. O espaço oferece ambientes imersivos, ideais para postagens nas redes sociais, um teatro e uma galeria de arte.

Trajano foi o responsável pela grande transformação tecnológica que levou a Magalu a ser uma omnichannel efetiva. Sob o comando dele, a empresa introduziu uma experiência de compra completa utilizando o WhatsApp. Também lançou, ainda em 2009, a influenciadora e assistente de vendas virtuais Lu, que ajudou a personalizar as vendas do e-commerce e possui dezenas de milhões de seguidores nas mídias sociais. Agora, completa a oferta com a megaloja física.

Realidades distintas e soluções adaptadas

Além da Magalu, outras grandes varejistas brasileiras vêm apresentando bons resultados, assim como muitas norte-americanas, com investimentos, processos organizados e tecnologia de ponta. No entanto, fazer esse investimento é uma realidade distante da maioria dos negócios brasileiros.

Os agentes de IA, tão discutidos neste ano na NRF, são um exemplo. “No Brasil, majoritariamente, o que se tem é o atendimento via chatbot, o que não é a IA que está sendo falada nos EUA. O varejo no Brasil está na jornada para os agentes, mas por enquanto utiliza uma IA padrão”, esclarece o diretor de vendas para o varejo da Oracle Brasil, Narques Roberto.

Ele explica que o gap tecnológico já foi muito maior e vem diminuindo entre os dois mercados, mas ainda existe. “O que está sendo tratado aqui, e vai mexer no ponteiro do varejista, será implementado por volta de 2030 no Brasil”, completa.

Há vários fatores que explicam essas diferenças, a começar por questões econômico-financeiras, desafios estruturais, questões tributárias e até mesmo características dos mercados, que acabam afetando mais as médias e pequenas empresas. Essas últimas, a maioria dos negócios brasileiros.

Um exemplo claro está no campo logístico. “Nos Estados Unidos, mesmo sendo um país tão grande, há rodovias muito boas e um custo de combustível baixo. Levar um produto de um lado a outro do país assim fica muito barato, mesmo que seja um produto de baixo valor agregado. No Brasil, para você levar um produto de baixo valor agregado de um lado a outro, o frete custa mais que o produto”, compara Roberto. Ele lembra também das complexidades tributárias e diferenças entre estados.

Os fatores impactam na viabilidade de enviar mercadorias para clientes distantes, na escolha de fornecedores e em custos altos por conta da falta de escala. Constituem-se, assim, redes regionais. “Há redes que se consolidaram, por exemplo, no Nordeste, e não expandem para outras regiões, assim como outras do Sul”, diz.

Soluções tecnológicas muitas vezes precisam ser adaptadas para se tornarem viáveis nesse cenário. A Oracle, que atende clientes como o Walmart nos EUA, compôs pacotes com recortes específicos para os varejistas de porte médio do Brasil. No ano passado, lançou a solução Mercadorias Fast no país. “É um recorte menor do pacote robusto que temos para o varejo nos EUA. Ele inclui tratamento de mercadorias, cadastro de produtos, regras tributárias e a integração da fatura de entrada com o produto.”

Durante o evento em Nova Iorque, a Oracle lançou uma nova solução em nuvem para conectar toda a cadeia logística e de fornecedores em escala global, o Oracle Retail Supply Chain Collaboration. A proposta é mitigar riscos a partir de insights orientados por dados, com alertas sobre possíveis problemas antes que afetem o negócio.  No Brasil, o público-alvo da nova solução, por enquanto, deve ser apenas as grandes varejistas.

Longo caminho pela frente

Se as novidades tecnológicas precisam ser adaptadas para se tornarem viáveis ao fôlego das varejistas médias no Brasil, o caminho das pequenas é consideravelmente mais difícil e longínquo. “A gente ainda tem bastante trabalho pela frente. Há necessidade até de letramento quanto ao uso de tecnologias dentro da operação”, alerta o especialista em varejo e coordenador das iniciativas do setor do Sebrae Nacional, Flávio Petry.

“Às vezes, o empreendimento ainda carece de compreensão de princípios de gestão básicos, que precisam ser aprendidos. Porque não adianta colocar ferramentas e achar que vai funcionar se não existe um processo construído dentro da operação”, completa.

No entanto, Petry faz coro com Roberto, da Oracle, quanto à velocidade das mudanças em andamento. “O self-checkout, por exemplo, já existia há muito tempo nos EUA quando passou a ser introduzido no Brasil, e só nos últimos anos os varejistas nacionais começaram a investir no modelo. O consumidor está mudando mais rápido, os tempos estão mais curtos para a chegada e adaptação de novas tecnologias. Conforme vão ganhando escala, as inovações vão ficando mais acessíveis.”

A matéria tem como fonte o portal:
https://dcomercio.com.br/publicacao/s/da-nrf-2026-para-a-realidade-do-varejo-do-brasil

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